26 de dezembro de 2011

A experiência mais extraordinária do mundo…

… é ser um menino de sete anos dentro de um banheiro feminino no shopping.

Nenhuma dúvida a esse respeito. Se você, caro leitor, arrisca opções estupendas  como conversar com os mortos, ou escalar um vulcão, ou ganhar na megasena, sinto muito. Se soubesse das coisas de verdade, saberia que você já perdeu o tempo – já não tem sete anos, ou não nasceu menino, ou teve uma mãe que jamais lhe levaria para dentro do banheiro do shopping .

Assim é. O nome dele acabou me escapando, e olhe que a mãe volta e meia berrava: João, tá com a porta fechada? Assim gritando, naquele timbre de ameaça mecânica de mãe. Ela em um cubículo, ele no imediatamente ao lado, ela, ciosa da intimidade alheia, protegendo os mistérios femininos. João (ou Pedro) fechava a porta no susto, tôôôô, para não esperar sequer um segundo, abrir a porta e olhar. Ele só olhava. Jamais presenciei tamanha gula em olhos masculinos. Ele olhava tudo, e quase nada havia para ser olhado, mas isso é avaliação dos meus olhos cansados de mulher. Para ele, havia tanto a olhar na moça se investigando há cinco minutos intrigada com o fato de a maquiagem não a ter deixado mais bela. Outra lavando as mãos resmungando impropérios contra a chefe, várias entrando e saindo nos cubículos. Umas duas vezes Pedro (ou Maurício) fez menção de se abaixar levemente, o que me causou um quase frenesi. Ele não chegou nem perto de olhar pela abertura das portas, mas é como se todo o seu pequeno corpo o levasse a isso. A cabeça ouvia as ameaças maternas mas uma espécie de torpor o levava em direção ao seu destino, ameaçador e misterioso, aquele mundo repleto de mulheres vestidas mas que por detrás das portas ficavam sem roupa, mostravam as suas partes e faziam outras coisas mais.

Maurício (ou Gustavo), tá com a porta fechada? Tôôôô, e dessa vez nem fechar a porta fechou. Céus, como aprendem rápido!, e eu achando adorável aquela sapiência que anos mais tarde costuma despertar  lágrimas enfurecidas e vaticínios de que os homens são todos iguais. Sabendo que o fim se aproximava, devorou os últimos segundos que restavam, para em seguida retornar ao claustro de onde não deveria nunca, sob hipótese alguma, ter saído. Fechou a sua porta ao mesmo tempo em que a mãe, e eu, entre o alívio e o maravilhamento de ser testemunha de tamanha harmonia.

E me permiti, confesso, um toque de nostalgia de tempos que não sei bem quais, mas onde o corpo e os rituais femininos eram o mistério maior. Para os meninos homens de todas as idades.


24 de dezembro de 2011

A felicidade pra você me dar

Papai Noel,

Vê se você tem

a felicidade

pra você me dar

Essa música de Natal é a que mais me toca – me parece uma das mais sinceras. Mesmo com os sinos e de terem ficado felizes a cantar, vem o pedido – estaria ela com você, Papai Noel?

Uma vez escutei que ninguém quer morrer mas todo mundo quer ir pro céu. Consideremos que ir para o céu sem morrer seria algo como…. ser feliz. Aí cada pessoa quer ser feliz de um jeito e o Papai Noel fica deveras confuso. Porque se alguém disparasse a queima-roupa: o que é ser feliz? Além de generalidades, o que diria você? Qual o seu presente, a ser entregue em papel vermelho e laços dourados? Ou, se não entregue, por ele já ter morrido ou não ter brinquedo, onde estaria o tal brinquedo?

Neste natal, a todos os amigos, leitores, criaturas e criadores, um belíssimo ponto de interrogação, além de paz, saúde e gratidão pelo ano que finda.

(em tempo: eu pediria ao bom velhinho paciência, pois como diz Riobaldo, Deus é paciência, o contrário é o diabo)


28 de novembro de 2011

Me leve para passear

- Então, você lembra das luzes?

- Que luzes?

- Aquelas luzes. No céu.

- Sim, sim. Eram discos voadores mesmo?

- Não. Acho que são aviões. Ontem deu pra ver direitinho, eles estavam voando baixo.

- Deve ser ótimo essa vida bucólica de morar num lugar escuro e conviver com os aviões e com as corujas. Eu adoro corujas.

- As corujas gritam. Mas as estrelas são bonitas. Quando falta luz é lindo.

- Lindo? Sem televisão? Duvido.

- É lindo sim, os signos e os planetas.

- Não dá pra ver os planetas. E o astrologia tem a ver com disco voador?

- Eles passam pelas constelações, ué. Os viajantes. Sei lá. Tá tudo assim meio longe, no espaço.

- Desde que fiz aquele curso de astrologia obrigado por você, fiquei totalmente imbuído da certeza de que astrologia é de mentira. Só o horóscopo do jornal O Coletivo é de verdade.

- E disco voador?

- Também é de verdade.

- O seu ascendente em Gêmeos é muito cheio de malineza. Ou acho que inventaram essa palavra pra você, depois que respondeu convictamente a todas as perguntas do Livro das Perguntas do Neruda.

- Não é Gêmeos, é Câncer. A hora na minha certidão está errada.

- Mas qual a diferença, se vc não acredita?

- Diferença nenhuma. Mas é Câncer. E aquelas perguntas eram muito fáceis.

- Tá. Mas a questão toda é essa coisa de não me sentir muito daqui.

- Daqui de onde? Você nasceu aqui.

- Daqui desse lugar, ou desse planeta, não queria colocar assim em termos planetários, mas é que às vezes acho essas pessoas tão estranhas.

- Eu acho todo mundo estranho. E meio sujo também.

- É.

- Acho que sei o que é isso que você está falando. Quando criança, tinha a sensação certeira de ter sido atirado aqui. Sabia que tinha acontecido.

- Atirado?

-É.

- Vindo de onde? Do alto?

-Não sei. De outro lugar.

- Não sei se eu tinha dessas coisas não. Mas teve um dia que vi uma luz no céu e acho que entendi tudo.

- O disco voador te explicou?

- Mais ou menos. Acho que foi. Todas as coisas de todos os lugares se encaixaram e eu sentia que tinha um lugar nessa história tão comprida.

- Você entendeu tudo?

- Entendi. Mas desentendi tudo no dia seguinte.

- Um dia eu sonhei com alguma coisa que não me lembro e durante cinco minutos também entendi tudo sobre todas as coisas.

- Sim, mas o que eram todas as coisas e para que servia tudo?

- Não lembro.

- Mas, sabe, acho mesmo que tem uma chance de os aviões serem discos voadores disfarçados.

- Você já viu disco voador disfarçado?

- Já.

(silêncio)

- Esses são disfarçados. Você acredita em mim?

- Acredito.


22 de novembro de 2011

Café com bytes

Passei pela sopa de macarrão com carne moída toda orgulhosa de minha quase indiferença, mas uns quatro passos adiante me rendi ao palmier repleto de açúcar cristalizado. Palmier é uma coisinha sublime em forma de caracol, com farinha e açúcar e muito afeto. O cenário é o restaurante do trabalho, que à tarde serve um café colonial, ou talvez colonial seja demasiado solene. A mesa é grande e cheia de besteiras adoráveis, onde se paga pouco e certamente se engorda muito. A arrumação do lugar se faz com várias mesas de quatro lugares grudadas umas nas outras, de modo que quando o lugar está lotado, é preciso sentar com desconhecidos com aquele certo constrangimento. Se bem que hoje não reparei desconforto nenhum – me sentei perto de pessoas muito entrosadas. Com seus celulares.

Os cabelos e a barba branca ficavam mais evidentes na pele bem morena do senhor que se sentou na diagonal, quase um papai noel dos trópicos. Trazia uma tigela com o tal caldo de macarrão com carne moída, suspiro quase indignada. Sentou, tirou do bolso o celular, subiu a pequena antena, apoiou o tijolinho em frente do porta-guardanapo, curvou a coluna. Olhos vidrados. Será que apenas via as imagens, porque ouvir, não ouvia, uma barulheira de famintos saindo e chegando a todo minuto. Nisso, uma moça jovem e bem pintada, com gel no cabelo e salsichas no prato, senta logo em frente e entremeia as garfadas com mexidas infalíveis no celular. Quando terminei o café, fiquei bem uns trinta segundos esperando ela olhar para frente, queria me despedir, com licença, mas desisti e fui embora sem falar nada mesmo.

É claro que eu, você e as torcidas todas, estamos todos muito pimpões com os aparelhos modernosos, ou nem tanto, comprei um que faz tudo, até vela acende e apaga, mas não me deixa falar por muitos minutos, porque telefone que serve para telefonar é tão antiquado. Também não escapo ao grupo que mexe e remexe de vez em quando. Espelho infame, já me flagrei mexendo, checando alguma desnecessidade quando sozinha em algum lugar, esperando ou mesmo comendo. E hoje, olhando meus colegas de mesa tão entrosados, me veio uma impressão tão forte de um espantar da solidão, ou quem sabe um tipo estranho de desconforto (ou falta de costume?) de estar ali consigo, comendo em silêncio, esperando o acaso que traria pessoas para a mesa coletiva, fazendo alguma observação boba sobre o tempo ou só desfrutando do desconforto de partilhar, a contragosto, a refeição rápida.

Esperar só esperando não tem mais cabimento. Nem comer só comendo. Os mais atrevidos já vão mais longe, nem estar com os amigos só estando com eles tem sentido. E ficam tantas perguntas sobre a tal conectividade que ocupa um lugar cada vez maior enquanto duvidamos sobre onde colocar as mãos e manter os pés. Com o planeta nas mãos, em cada pessoa um mundo inteiro, tão grande e ao mesmo tempo inexistente.No barulho do restaurante, olhando as cenas da vida, a ausência era estranhamente normal.


21 de junho de 2011

China dinheiros

Conversa com atendente do china in box:

- Quero a latinha azul.

- Quantos china dinheiros você tem?

- Dois, com essa compra, mais dois.

- Ah não, não pode, você já tem que ter quatro dinheiros.

- Então tá, eu tenho quatro.

 

Pois é, por um lapso de verdade, vou ganhar a latinha azul apenas na próxima compra, pois a atendente se mostrou silenciosamente indignada com a minha estratégia. Mas, oras. Se acabei de receber meus dinheiros, por que razão não poderia gastá-los na latinha azul, criação de publicitários insidiosos que sabem o quanto temos baixa imunidade a coisas inúteis e coloridas?

Em vez de uma longa preleção sobre meu direito adquirido sobre os dois dinheiros que me seriam entregues em 40 minutos, visualizei a cena singela:

O moço chega com o pedido. Recebo e pago. Abro o saco onde estão os dois china dinheiros. Ohhh, preciso pegar os dinheiros da lata! Meio estabanada, caminho até o armário, onde junto os dois dinheiros de hoje com os dois que estão dentro da gaveta. Cheia de charme, dou meia volta e retorno à porta, onde o moço aguarda os quatro dinheiros. Ele recebe os quatro dinheiros. Todos ficam felizes.

Não deu certo. A verdade nem sempre compensa. E de quebra, o pedido veio errado.


01 de junho de 2011

Violetas

A violeta que mora na sala abriu o corpo a florir. È qualquer coisa de muito doce, pois os botões parecem flores murchas, mas é justamente ao contrário – de um negócio disforme surge a nova senhorinha. Violeta, como o nome da flor. Quando ela chegou, era branca com riscos de um vermelho que beirava a tonalidade do vinho. A violeta mais linda que já tinha visto na vida. A mulher me cobrou dez reais e a reação foi histriônica. Dez reais? Violetas não custam quase nada nos mercados? Mas a vendedora se pôs a falar qualquer coisa que não me lembro e, já enfeitiçada, levei o vaso para casa. As flores duraram poucos dias.

E vaso de violeta é assim uma coisa meio invisível, não? Dizem que não pode aguar demais. Desse cuidado para a negligência é um suspiro, e molhava de vez em quando, sem grandes conversas, expectativas nenhumas e nada de incômodo. E meses depois, mudando de cor, a moça desabrochou. Me acomete  um espanto de ver os milagres que acontecem quando não se faz quase nada.

Nos relacionamentos florais e nas criaturas de todos os reinos da natureza, a despeito de toda velocidade e violência do bicho do homem, a naturalidade ainda tem lugar. As coisas existem e boa, um momento depois do outro. O céu se banha de sol para depois escurecer, as árvores respiram e ainda existem corujas. O fazer é tão natural que mais parece é que não se faz nada. Por que nós, os humanos, todo o tempo precisamos pensar que é preciso fazer alguma coisa?


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